terça-feira, 7 de maio de 2013

O Zelador




Ele observava atentamente enquanto varria o pátio da escola. Todas aquelas crianças correndo, chacoteando, motejando à toa. Adorava passar as manhãs e as tarde ao redor delas, seus anjinhos. Vez que outra, no intervalo entre a limpeza dos corredores e da escadaria, ficava olhando as aulas de educação física.

 

Os meninos mostrando a pujança de seus músculos púberes, formando-se ainda dentro de calções curtos, que deixavam ainda mais evidentes as formas durante o jogo de handebol. As meninas, com suas delicadas e curvilíneas formas acentuadas pelas suplex, coladas como se fossem peles coloridas, que a cada movimento atrás da bola de vôlei, formavam um balé simétrico, lindo, capcioso.

Ao final de cada turno, postava-se escorado a uma árvore em frente à escola. Permanecia ali até que todos os infanto-juvenis deixassem apenas a saudade e o desejo de que o próximo dia chegue, para poder, outra vez, ficar observando, tal qual uma ave de rapina no alto de um penhasco.

Após a calmaria, percorria cada corredor, cada sala de aula. Por fim, os banheiros, como um rito. Primeiro o masculino, verificava cada recanto, sentia os cheiros, respirava fundo. Depois, o feminino, onde se demorava mais.

Havia três meses que foi contratado. Gostava muito da atividade. Morava sozinho em um quarto de pensão mal arejado. Já com seus trinta e nove anos, não tinha família.

Nunca casou, não teve filhos. Vez que outra procurava uma prostituta para saciar suas necessidades. Não tinha e não queria ter um relacionamento fixo. Achava perda de tempo passar anos e anos agüentando a mesma pessoa. Preferia a solidão.

Na escola, pouco se sabia sobre sua vida e seu passado. Apenas que havia trabalhado em uma escola da capital e teve que mudar-se para o interior por motivos de saúde. Tinha uma carta de recomendação assinada pelo diretor da instituição anterior.

Trabalhava diariamente sem exageros, sem reclamar. Observava tudo, quem entrava e quem saía. Qual carro cada professor e cada pai ou mãe possuía.

Foi numa sexta-feira, no final do turno da tarde, que aconteceu o inesperado. Como fazia todos os dias, ficou observando as crianças saindo. Era um dia como outro qualquer, não fosse o fato dele estar espreitando atrás do muro que escondia o terreno baldio em frente à escola.

Suava frio, sua respiração estava ofegante. Sentia um leve tremor nas pernas. Por um buraco no tijolo ele viu quando a menininha atravessou a rua e caminhou na direção que ele estava sem poder vê-lo. Quanto mais perto ela chegava, mais nervoso e irrequieto ele ficava. Repentinamente ele saltou por cima do muro. A menina gritou aterrorizada.

No dia seguinte o zelador estava nas manchetes dos jornais: Pedófilo é preso ao tentar agarrar uma estudante em frente à escola.

No mês seguinte ele estava trabalhando em outra escola, em outra cidade. Observava as crianças como um pai observa um filho. Estava apreensivo e ao mesmo tempo feliz, satisfeito em poder estar perto de seus anjinhos.

Espreitava tudo, como ave de rapina no alto de um penhasco. Sabia que cedo ou tarde, prenderia mais um maníaco, cumpriria com louvor mais uma missão na sua carreira de policial.

 

Por: roberyk

 

 

Diário de PM/BM


Nenhum comentário:

Postar um comentário

Comentários - Regras e Avisos:
- Nosso blog tem o maior prazer em publicar seus comentários. Reserva-se, entretanto, no direito de rejeitar textos com linguagem ofensiva ou obscena, com palavras de baixo calão, com acusações sem provas, com preconceitos de qualquer ordem, que promovam a violência ou que estejam em desacordo com a legislação nacional.
- O comentário precisa ter relação com a postagem.
- Comentários anônimos ou com nomes fantasiosos poderão ser deletados.
- Os comentários são de exclusiva responsabilidade dos respectivos autores e não refletem a opinião deste blog.