sábado, 1 de fevereiro de 2014

Treinando para à hora da verdade! (Parte 1)



Todo atirador ou policial acerta quando afirma que cada tiro deve ser rápido e preciso. Na verdade, toda simulação “em seco” ou treinamento prático com armas de fogo tem relação com a precisão e a rapidez dos disparos. No IPSC ou Tiro Prático, se o atirador for rápido demais a ponto de errar alguns tiros, ele perde. Se ele for preciso e muito lento, ele perde. Então, o fundamental é o equilíbrio entre a precisão e a velocidade da ação. É como diz um colega: “Primeiro você deve ser preciso, já que a velocidade é adquirida com o treino!”
 


Mas e quando o policial não está mais num estande de tiro, e sim numa padaria, num posto de combustível ou numa casa lotérica? E quando o policial não está usando o coldre ostensivo? E quando ele está sozinho confrontando dois suspeitos? Pensando sobre isso, acredito que o princípio do equilíbrio continua válido. E se a velocidade vem com a prática, então é preciso treinar. Contudo, existem modos de portar uma arma que são mais acessíveis e rápidos que outros, assim como existem treinamentos que podem ser realizados todos os dias.

Policiais se orgulham de sua capacidade de estabelecer perfis e determinar se alguém é suspeito e se ele está armado. Às vezes, a pessoa observada é um suspeito de fato, e por vezes, é um policial de folga. No entanto, quantas vezes eles pensam na possibilidade de serem identificados como policiais com base no modo como se vestem, se comportam e portam suas armas quando estão de "folga"?

Quando se fala em porte de arma fora do serviço, o que, como e onde o policial porta sua arma é uma questão de estilo de vida, ou seja, cada um faz ao seu modo. É quando você quer estar armado, mas sem parecer que tem uma arma. Na verdade, a maioria dos policiais deseja passar despercebida quando está à paisana. Infelizmente, isso não foi possível para o Policial Federal C.A.C., que foi sequestrado por dois homens armados e depois assassinado após ser reconhecido como policial em 05/04/1987.

Para evitar que se encontrem numa situação vulnerável semelhante ao do Policial Federal C.A.C., alguns policiais carregam uma segunda carteira desprovida de qualquer coisa que possa identificá-los como policiais. Outros carregam suas identidades funcionais em áreas menos acessíveis do corpo. Mas esconder uma arma é bem diferente! E sacar uma arma escondida (enquanto o agressor está perto) é outra coisa!

Tempos atrás eu escrevi sobre algumas medidas que os policiais podem adotar quando estão de folga. Também disse que não existe técnica perfeita ou que possa ser utilizada em todas as situações e que o importante é ter opções. No caso do porte de arma dissimulada, estas ideias não mudam.

O ideal no porte ostensivo duma arma deve ser a segurança, o conforto, a facilidade de acesso e a rapidez do saque. Entretanto, quando você quer que sua arma fique imperceptível ao público, você acaba sacrificando alguma coisa. Quer dizer, justamente quando o policial está mais vulnerável ao ataque dos criminosos, ele tem o acesso e a rapidez no saque prejudicados.

Parte do problema é uma questão de condicionamento ruim: inexistem treinamentos intensos que preparem o policial para reagir, sob condições de intenso estresse, sacando uma arma que está escondida. O que se vê, normalmente, são policiais alinhados sacando armas de coldres ostensivos. Treinos com saque de arma dissimulada são importantes porque o estresse prejudica (e muito) a precisão, e a arma escondida dificulta o acesso e diminui a velocidade da reação. Além disso, poucos policiais realizam treinos “em seco” com suas armas sob a camisa. E o pior: a maioria é resistente a experimentar novos procedimentos. Infelizmente, tais hábitos podem ser fatais para o dono da arma!

Então, se o porte dissimulado é uma questão estilo; se é importante ter opções; se existem modos mais eficazes para portar uma arma; você precisa considerar se seu comportamento atual oferece segurança para as situações mais perigosas. Você precisa avaliar o uso de coldres de qualidade para porte dissimulado que proporcionem a colocação da arma na frente, na lateral e atrás do corpo. Eu disse COLDRES DE QUALIDADE! São eles que protegem sua arma e deixam o porte confortável, evitando que você use as pochetes de "saque rápido" ou deixe sua arma dentro do carro. Certamente, você também precisará de mais de um tipo de coldre para portar sua arma com conforto nas atividades diárias. Você deve treinar em seco (e muito) e com tiro real nestas três disposições para saber qual delas é a melhor, mais acessível e mais rápida para uma determinada circunstância. E você necessita treinar com roupas diferentes também.

Apesar de possuir alguns coldres e já ter portado minha arma nas três posições, frequentemente uso o posicionamento lateral para o uso velado, pois é o mais natural e eficaz, tanto pela acessibilidade quanto pela rapidez no saque, além de ser menos incômodo. É uma posição excelente para quando você está vestindo um paletó ou uma blusa de frio. Já o porte frontal é bom, porém incômodo na hora de se sentar, o que leva o policial a “ajeitar” a arma constantemente na cintura (ajeitar alguma coisa sob a camisa é um indicativo de alguém armado). Contrariando minha preferência pelo porte lateral e frontal, eu usava um coldre Small of Back quando minha hora da verdade chegou. Obviamente, a rapidez no saque de uma arma dissimulada em determinada posição tem relação direta com a quantidade de prática que o policial possui com aquele coldre e naquela posição. Portanto, eu sobrevivi porque treinava com aquele coldre.

O que poucos sabem ou querem entender é que para praticar, você não precisa necessariamente atirar de verdade, já que o treino real nem sempre é viável pela carência de munição, estandes disponíveis, tempo, etc. Daí a importância do treinamento “em seco”.

O treino em seco é a oportunidade para você perceber o que está fazendo de certo ou de errado. Como o subconsciente não sabe a diferença entre uma simulação e algo real, a visualização mental e a repetição são colocadas em prática no treino em seco de maneira que a mente e o corpo interajam para melhorar as habilidades psicomotoras que estão em desenvolvimento.

Entretanto, a aquisição e a conservação destas habilidades requerem não só muita repetição, mas uma frequente manutenção do que foi aprendido, já que tais habilidades são perecíveis.

Para evitar exaustivos treinos em seco, você deve realizar breves sessões com muita concentração e com a arma em total segurança. Treinos extensos irão sobrecarregar sua capacidade e provavelmente terão pouco resultado positivo. Então, o treinamento deve ser frequente ao invés de muito longo.

Seja como for e onde quer que você porte sua arma quando está de folga, por favor, pratique o saque de arma dissimulada e treine vestindo as roupas que você usa no cotidiano. Há uma grande diferença entre o saque e o disparo de sua arma quando você está à paisana e quando você está uniformizado na linha de tiro de um estande.

Portanto, não espere para descobrir essa diferença no pior momento da sua vida!

 

Por: Humberto Wendling é Agente de Polícia Federal e Professor de Armamento e Tiro lotado na Delegacia de Polícia Federal em Uberlândia/MG


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